Quarta-feira, 18 de Junho de 2008

Memórias da Minha Terra

As recordações de infância, aparentemente, adormecidas eternamente, surgem-nos muitas vezes de forma tão clara e saudosista, como que um convite a materializá-las para não mais serem esquecidas. Foi este estado de espírito, que me levou a pegar na caneta e escrever este texto recordando a minha aldeia há muitos anos atrás. Começo pelos rios Ocreza e Ribeirinha: Ambos nascem na Serra da Gardunha. O Ribeirinha desagua no Ocreza e por sua vez, este desagua no Tejo. Em lados opostos, o Ocreza corre a cerca de 2 quilómetros, do lado nascente da aldeia e o Ribeirinha a menos de 500 metros, no lado do poente. Situando-me no Ocreza, conheci-o desde a ponte romana, no lugar dos barrinhos, até á ponte pedrinha. O curso rápido da água, nas margens apertadas, era quebrado amiúde pelos açudes ao longo do percurso. Dos açudes, feitos com tal propósito, saiam as “levadas” que constituíam a força motriz dos moinhos. Também estes açudes, eram no Verão a “praia”, sobretudo dos rapazes. Os açudes dos braços, moinho novo e pacheca eram os mais frequentados. Nos Domingos, a qualquer deles, afluía muita gente. As águas correntes, eram límpidas e tinham muito peixe. Era um encanto apreciar esta natureza pura. O Ribeirinha era mais pequeno. Lembro-me dele desde a Sarangonheira até ao Chão da Ponte. Tinha as mesmas características que o Ocreza. Era limpo com muito peixe e com alguns açudes. Os açudes bastante mais pequenos, tinham os mesmos objectivos. Num destes aprendi a nadar. Nas pontas da aldeia havia dois locais, característicos, de utilidade pública: o adro e a devesa. Eram amplos e propícios aos torneios do jogo da “malha”. A devesa era maior; tinha o campo de futebol, o chafariz público, o posto de transformação de electricidade, “a cabine” e era onde acampavam os ciganos aquando da sua passagem por aquelas bandas. A aldeia era rodeada por quintas, com alguma dimensão. Os muros baixos em algumas e a ausência deles noutras, davam-lhe um aspecto baldio, embora fossem propriedades privadas: O chão da escola, nas traseiras da dita, era grande e todo plantado de oliveiras; O chão dos santos, ao lado da devesa tinha as mesmas características; a fonte nova e valdinardo, contíguos ao adro eram semelhantes aos anteriores. O Chão do outeiro, era diferente em arborização; em vez de oliveiras tinha sobreiros. Os proprietários destas quintas eram pessoas abastadas. Tinham outras fora da povoação que cultivavam intensivamente. Por isso, estas estavam praticamente de pousio. Neste estado, qualquer delas era propícia para as brincadeiras dos rapazes, sobretudo “cawboiadas”. Participei bastante nelas. Recordo-me, que, por inspiração nos filmes de “Westerns”, identificávamos estes locais, por estados americanos: O chão do outeiro era o Kansas; o chão das escola o Colorado; o chão dos santos, a Califórnia e o valdinardo, o Texas. A colheita da azeitona e da bolota eram feitas pelos donos, mas em qualquer dos casos o que caía para o chão era recolhido por quem necessitasse. Era uma benesse dada á povoação. Hoje, está tudo diferente: Os rios, devido ás barragens, então construídas, estão secos. Correm em Invernos muito chuvosos; as quintas foram urbanizadas e são bairros de habitação. Olhando quarenta anos para trás, não parece a mesma aldeia. Recordo com alguma saudade o passado, mas entendo, que com o progresso e evolução dos tempos não podia ser de outra maneira. Não temos a sensação de liberdade á volta da aldeia, mas temos uma aldeia maior e mais moderna!!!. Jcm-pq
publicado por jcm-pq às 10:22
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4 comentários:
De Moira a 25 de Junho de 2008 às 18:04
Belo texto, bonitas memórias!
As recordações de infância são sempre gratificantes, principalmente nas aldeias, onde apesar de algumas privações sempre houve muita liberdade. Eu apesar de ter nascido numa cidade e de ter quase sempre vivido em cidades também tive o previlégio de passar muitas férias no campo, e que saudades desses tempos e das "judiarias" que faziamos. Bjs


De jcm-pq a 26 de Junho de 2008 às 07:00
Olá Moira!
E é pena que a juventude actual não possa sentir estes prazeres. Penso que seriam diferentes!. PC´s, Telemóveis e outras tecnologias, são os divertimentos actuais!.
Jcm-pq


De cuidandodemim a 26 de Junho de 2008 às 13:50
Olá!
O lugar onde nascemos fica sempre aninhado no nosso coração.
Eu, apesar de ainda ser nova, sou muito saudosista e o lugar onde nasci também me traz recordações muito boas.
Obrigado. Gostei do que escreve.


De jcm-pq a 27 de Junho de 2008 às 07:21
Olá!
É bom saber que ainda há jovens a recordar com saudade as suas origens, ao contrário do que muita gente diz. Ter saudades da nossa terra, é para mim, indicio de humildade e dignidade!... Continue a pensar assim!... Obrigado pela visita que me fez!.

Jcm-pq


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