Quarta-feira, 1 de Outubro de 2008

Coisas da Vida!...

ZC e EV são um casal, que, orgulhosamente, fazem parte do meu circulo de grandes amigos. Conhecemo-nos há bastante tempo. Têm dois filhos: O LU e a IN. São uma família feliz e unida!... E, eu sou um privilegiado por os ter, a todos, como amigos!...

O LU, com trinta e dois anos, é casado e tem uma filha com dois anos. Profissionalmente, seguiu a carreira militar. É Capitão no Exército. Vive bem.

IN, tem vinte e nove anos e é uma miúda simpática e alegre. Em casa é do melhor que há. Sabe fazer tudo: Limpar, arrumar e cozinhar são tarefas que desempenha com gosto. Para petiscos, tem dedo!. E eu que o diga!. – Olha o meu colesterol!. – Digo eu. – Os meus petiscos curam qualquer tipo de colesterol!. – Diz ela com um sorriso aberto e cativante. É o orgulho dos pais!. – Damos graças a Deus pela filha que nos deu!. Repetem vezes sem conta. O LU também é uma jóia de rapaz, mas a IN é excepcional!. – Felizmente que ele não tem ciúmes – Diz a mãe. Quanto a beleza, é uma rapariga normalíssima!. - Não sirvo para modelo, mas também não parto espelhos – Diz ela com graça. Diz, ainda, que não tem físico de partir corações!... Pois!. Mas eu sei que um ingrato, amachucou bem o dela.

De facto, embora, desde Há dois anos para cá, tenha recuperado a alegria e felicidade, os quatro anos anteriores, foram negros!. Digo isto pelo que me foi permitido acompanhar e pelo que os pais me contaram.

Dentro da linha e espírito que me leva a escrever textos, vou tentar descrever, tal qual conheço a saga de quatro anos da vida de IN!. Ela sabe e diz que está ansiosa por ler!.

 

Então cá vai:

 

Com dezoito anos oficializou um namoro que na, realidade, já durava à cerca de um ano. Não era segredo para ninguém e muito menos para os pais. Uma das grandes qualidades de IN, é que nunca escondeu nada deles. Por opção, preferiu manter a relação como de amizade enquanto não atingiu a maior idade. – Só direi que namoro, quando puder votar. – Dizia a sorrir.

JO – o namorado – era um rapaz, alto, bem parecido e educado!. Era conversador e tinha ideias próprias bem formadas. Era agradável falar com ele!. Conversamos muito sobre assuntos militares. E, quando o LU estava presente, então a conversa prolongava-se!. Ninguém mais tinha licença para falar!. As mulheres fugiam do pé de nós!. Não fez tropa, mas interessava-se pelo assunto!. Porquê nunca soube. Eu dava corda, porque gostava de falar daquilo e o LU como militar profissional, obviamente participava activamente. Outros assuntos relacionados com uma diversidade de temas, nomeadamente: sociedade, mundo, convulsões politicas, economia, etc…, eram uma constante, nas muitas vezes que nos encontramos na casa dos meus amigos. Todos gostávamos dele!. – A IN merece!. – Comentávamos com alguma frequência!.

O namoro, durante cinco anos, foi normalíssimo. Desenrolou-se dentro dos parâmetros da época. Com algumas restrições – poucas – no inicio, mas depois foi à vontade. Saiam quando queriam, iam para onde lhes apetecia, faziam longos passeios pela Europa, gozavam férias sós ou acompanhados. Enfim, fizeram tudo o que os jovens da idade deles fazia. IN, entregou-se de alma e coração!.

Com vinte e um anos, IN terminou o Curso de Contabilista e inscreveu-se como Técnica de Contas. Com, relativa, facilidade conseguiu trabalho num Gabinete de Contabilidade. Entretanto, JO continuou os estudos em Psicologia Clínica. O casamento estava previsto para quando este terminasse.

Tudo estava a decorrer como o previsto. JO estava a finalizar com boa média e IN já se imaginava vestida de noiva. Andava radiante!... Mas, contra ao que toda a gente esperava, inclusive eu, as previsões não se concretizaram. O namoro de IN estoirou!... Foi um golpe rude para todos!... Obviamente, quem mais sofreu, foi ela!... Mas os pais também tiveram a sua dose!... A mim também me custou bastante!...

Na viagem de finalistas a Cuba, JO envolveu-se com uma colega. Já durante o curso esta o atazanava, mas JO resistiu às investidas. Longe de IN não teve força!. Pensou que depois de uma aventura ela o deixasse em paz!. Enganou-se!. Ainda ficou pior!. Telefonemas e SMS´s eram uma constante. Pior era quando lhe aparecia de surpresa em locais inesperados e a horas pouco convenientes!. Dava-se ao desplante de arranjar programas e lhos apresentar como facto consumado. Para levar a sua avante, chantageava!.. Estupidamente, JO deixou-se levar!. E, tantas vezes o cântaro foi à fonte até que …… a colega engravidou!. Aqui foi o fim!...

As desculpas que dava a IN, para as escapadelas, eram convincentes. A tónica era sempre profissional: Entrevistas e seminários eram o forte!... Ainda houve quem tentasse alertar IN, mas esta tinha tanta confiança nele que não ligou. Achou que era uma mistura de inveja e brincadeira de mau gosto!. Não quis acreditar!.

Quando JO lhe disse e tentou justificar o que não tinha justificação, IN passou-se!. Quando entendeu a situação, nem quis ouvir mais!.... Atirou-se a ele.

- Não sabemos onde é que ela arranjou tanta força. Ele ficou bem aviado!. As marcas na cara e no pescoço eram bem demonstrativas. Ele nem reagiu, limitou-se a fugir assim que conseguiu libertar-se dela!. Grande coça que ela lhe deu!...

- Contaram-me os pais.

Como era de esperar, IN entrou em estado de choque!. Fechou-se no quarto!... Chorou!... Desprendeu-se de tudo e de todos!... Não queria falar com ninguém!... Enfim, entrou num estado depressivo tão grande que esteve cerca de seis meses de baixa!... No primeiro mês só a mãe falou com ela!...

Quando os visitava e sabendo que ela gostava de falar comigo, os pais avisavam-na da minha presença. No princípio ignorava. Só passado algum tempo é que começou a aparecer!... Eu, numa tentativa de ajudar, lá lhe ia dizendo frases feitas, já por demais conhecidas e a cair de caruncho!... A maior parte das vezes olhava, sorria e nem respondia!... Consegui algum dialogo, quando sentiu que o que lhe dizia era realmente o que eu sentia!. O que era dito do coração!... Mesmo sem me dizer eu percebia quando discordava!. Eu tentava por outro lado!... Até lhe sugeri consultar um psicólogo. Negou com aceno de cabeça!. Não foi fácil lidar com a situação mas não desisti!... Ainda me recordo de uma resposta num desses diálogos.

– Como se sentiria se tivesse a sensação de que lhe roubaram todo o sentimento!... Até há pouco tempo eu só odiava!... Odiava as pessoas, as coisas, a minha vida!... Odiava tudo!... Odiava-me a mim própria!...

- Chocou-me!... Nem retorqui.

A pouco e pouco o estado critico foi passando!... Um dia, reportando-se ao inicio da situação, pediu desculpa ao pai ao irmão e à cunhada pelas atitudes que tomou!... Fez o mesmo em relação a mim!. – Não necessitavas fazê-lo. O que é preciso é que saias dessa “fossa” e tu tens força para isso!... – Respondi-lhe – Sim. Eu sei. Já arranjei e comecei um tratamento que vai resultar, vai ver!. - Respondeu, com o indicador direito colado à têmpora. – Ah! Sim!.. E posso saber que tipo de tratamento é? – É muito simples! Meditar nesta frase “Existem sempre um ou vários caminhos certos, mas às vezes necessitamos de nos separar um pouco da berma e alçar a vista para poder vê-los”. Hei-de encontrar o meu!. Li-a num livro que estou a ler “A Inutilidade do Sofrimento”!. - Esclareceu IN!. - Deus te oiça, rapariga!. – Disse eu!... Os pais encolheram os ombros!...

A recuperação foi lenta. Passados dois anos ou mais era frequente, nos convívios que fazíamos, passar do estado, mais ou menos alegre, para um estado melancólico!... Às vezes lá vinham umas lágrimas!... Levantava-se, ia à casa de banho e voltava!... Mas, naquele dia já não era a mesma!... Ela sofria!... Sofria muito!... Escondia o máximo que podia!... Mas, por vezes não conseguia!...

A mãe, ainda a incitou a sair e procurar o convívio de colegas. – O convívio faz-te bem!. Lá por ter acontecido o que aconteceu não quer dizer que seja sempre assim!.. Os homens não são todos iguais!... Esconderes-te em casa é o pior que podes fazer ……! – Só de ouvir isso fico arrepiada!. – Respondeu IN, desencorajando a mãe a continuar.

Não me recordo que alguma vez se tenha falado do JO, que entretanto, como era de esperar, casou. Casamento que durou pouco. Ao fim de três anos e com um rapaz, divorciou-se. Ninguém disse nada a IN porque em dada altura deixou bem claro que não queria falar ou ouvir falar em tal pessoa.

Mas, passado algum tempo do divorcio ter decorrido, JO tentou contactar IN: Primeiro pelo telemóvel. IN não conhecia o número. Quando se apercebeu de que era ele, desligou e nunca mais atendeu tal número; Ainda tentou com outro número e o resultado foi igual; Tentou no local de trabalho. IN não lhe deu troco, ignorou-o simplesmente!... Sabendo como ele era, IN suspeitou que a próxima tentativa fosse na residência. Pelo sim, pelo não, alertou os pais para essa possibilidade e dissuadi-os de correr com ele. Pelo contrário, disse-lhes para o mandarem entrar, que ela trataria dele a seguir. E de facto não se enganou. Não tardou muito o JO bateu-lhe à porta!. Cordialmente, os pais fizeram como ela disse. Chamaram-na e ficaram por perto. Ele queria falar em privado, mas ela não quis!... O dialogo não durou mais de dois minutos. IN disse-lhe tudo o que sentia e correu com ele. Remédio santo. JO saiu, cabisbaixo e não apareceu mais!. Nem IN nem os pais me contaram o que foi dito!... Mas imagino que deve ter sido muito dura!...

Há cerca de um ano, um colega do LU – o AM - aleijou-se num exercício físico e baixou ao Hospital Militar. Foi operado a um joelho e ficou três meses em convalescença. Era de Trás os Montes e não tinha familiares em Lisboa. Intencionalmente ou não, LU pediu à irmã que lhe fizesse uma visita e lhe desse alguma assistência. IN assim fez. Não lhe custou muito, até porque se lembrava dele das poucas visitas que fez ao quartel. Era simpático, alegre, educado e muito bem formado. Era de um humanismo de todo o tamanho. – Oh! IN não te incomodes comigo! Há coisas mais interessantes para fazer do que aturares este “chato”!. O teu irmão é que te meteu nisto!. Ele é que é o culpado!... – Repetia AM com frequência. IN não lhe dava ouvidos!. Começou com uma visita semanal, passou a duas e por fim todos dias. O que começou a fazer por dever cívico acabou por fazê-lo por gosto. Foi tão bom que quando AM teve alta, estavam noivos!.

Hoje estão de casamento marcado e IN é a mesma miúda alegre e extrovertida que era antes do incidente!...

Diz o povo, com alguma verdade, que o tempo cura todas as feridas!... Mas, em minha opinião, há certas feridas que só nós próprios é que as podemos curar!... No caso de IN, ela é que se curou a si própria!... Não necessitou de psicólogos ou afins!... A ajuda da família e dos amigos, onde me incluo, foi importante, mas é a ela própria que deve tudo!. O auto-tratamento, resultou!... Ainda bem!...

Força IN!. Grande mulher que tu és!..

 

Jcm-pq

publicado por jcm-pq às 14:10
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6 comentários:
De cuidandodemim a 1 de Outubro de 2008 às 14:40
Amigo, li a história por si contada com muita atenção e com o coração a bater descompassado... Houve uma altura que até as lágrimas me vieram aos olhos... Há coisas na vida que nos causam muito sofrimento e que custam a passar, mas quando realmente se merece a vida sabe nos recompensar. Fico muito contente por a sua amiga estar recuperada e bem. Fico feliz por saber que está de casamento marcado, porque assim me dá esperança para acreditar que depois da dor e de se "bater no fundo do poço" há sempre a possibilidade e a esperança de se voltar a viver e a acreditar no amor...
Bjns e obrigada por ter partilhado esta história.


De jcm-pq a 3 de Outubro de 2008 às 09:57
Olá Cuidandodemim!

A vida nem sempre é um mar de rosas!. Hoje vemos muitas pessoas felizes e nem nos passa pela cabeça do que terão já sofrido!. Normalmente essas pessoas não querem falar de passados tristes!. Ter conhecimento destas histórias também nos amadurece e prepara para a vida. Por isso a publiquei!.
Obrigado pela visita.

Beijinhos


De M.Luísa Adães a 6 de Outubro de 2008 às 17:49
jcm-pq

Um texto muito bem escrito e uma análise muito bem feita!
Na realidade dizem que o tempo cura todas as feridas - mas eu digo que apazigua as feridas, leva-as para o mais fundo de nós e por vezes ficam quietas e não se movem Nada ... Mas há coisas que ficam até ao fim da vida e para além da vida.
Adormecem e eu dia acordam!

Tudo ou quase, depende de nós; da nossa força, do nosso acreditar, do nosso estar no mundo, da nossa
maneira de ser e das oportunidades que surgem e nos ajudam a esquecer.

Se um amor foi grande e nos deixou ... a ferida pode
levar 5 anos a sarar, mas um dia com outro amor
melhor, percebemos que o primeiro não prestava e
esquecemos tudo - como se não tivésse acontecido!
Se for outro tipo de trauma, talvez o tempo não cure e a nossa vontade não resulte, nessa cura.
Fica para sempre! Esvai, desce ao fundo, mas um dia por qualquer razão, volta à superficíe e traz
sofrimento e dor. Mas tudo depende de nós, essencialmente!
Mas como somos todos diferentes ... não há uma cura especifica para o sofredor.
A uns passa, outros não e depende da causa , do estado, da lembrança do que nos aconteceu e da
dificuldade em repudiar esse sofrimento.

Também a idade conta - a mocidade ajuda a curar!
O envelhecer por si só, traz recordações que bom seria esquecer.
Então chegamos à conclusão que o mau acontecimento pode acompanhar a pessoa por tempos largos, ou para sempre!

Enfim, tudo depende de quem sofre!

Mas a sua síntese está muito bem exposta; é a finalidade que se propoz cumprir - contar os acontecimentos.
E sabe dizer!

Com carinho,

maria Luísa



De jcm-pq a 8 de Outubro de 2008 às 19:10
Olá Luisa!

Um mundo melhor!. Que bom!.
O lavrador diz que tem de semear boas sementes e curar as menos boas, se quiser ter boas colheitas!. Na construção de um mundo melhor temos de ser lavradores, sementes e curandeiros ao mesmo tempo!. É uma tarefa difícil e esforçada sem garantia de sucesso absoluto!. Mas vale a pena o esforço, nem que seja só para curar uma única semente menos boa!.
Beijinhos!.

Jcm-pq


De M.Luísa Adães a 8 de Outubro de 2008 às 19:41
jcmpq

Sim vale a pena o esforço!
Se for uma pessoa de quem gostamos muito, maior é o esforço, pois os sentimentos contam.
Acredito na psicoterapia, até certo ponto; o terapeuta ajuda, o doente psiquico deixa-se ajudar; conta coisas que o aliviam, o outro pouco fala. Mas enquanto conversa e vai lembrando o passado, vai encontrando forças para a luta.

Se do esforço curar uma única pessoa (e cura mais)
"vale sempre a pena
se a alma não é pequena" como diz o poeta e em meia duzia de palavras, ele, poeta - diz tudo ...
No construir um mundo melhor, tal como diz, temos de ser tudo. Possa Deus ouvir-nos, pois todos nós ,
necessitamos de ajuda e de amigos.

Bem haja!

Maria Luísa


De jcm-pq a 8 de Outubro de 2008 às 19:12
Olá Luisa!

É verdade e concordo com tudo o que diz. A minha amiga IN, curou a ferida, mas a cicatriz é grande!. Acredito que em toda a sua vida, por mais que tente, nunca esquecerá estes quatro anos dramáticos!.
Agradeço a visita e o comentário.
Beijinhos!

Jcm-pq


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