Sexta-feira, 16 de Julho de 2010

O Sonhador

Lourenço, na aparência era um homem normal e singular. Bem falante, simpático, educado e improvisador eram atributos marcantes naquele homem. Falava muito e fazia pouco!. Mas sonhos não lhe faltavam. Tinha sempre em mente um projecto que o levaria longe!. Dizia-se que foi o homem que mais profissões tentou, sem acertar em nenhuma. E é isto o interessante da sua vida!... Era conhecido por sonhador – Lourenço sonhador – para ser mais preciso. Lembro-me dele, já na fase final da sua vida, como vendedor de cautelas. Lembro-me de algumas histórias que se contavam acerca dele, que vou tentar reproduzir: Antes da instrução primária, era uma criança normalíssima. O seu desenvolvimento foi o normal da época. Brincava com as crianças da sua idade e não se viam diferenças dignas de realce. Os outros miúdos gostavam dele. Era alegre divertido e empreendedor nas brincadeiras. Nunca fez distinções. Tratava todos de igual para igual o que lhe valeu a amizade colectiva e incondicionada. Não é de admirar. Afinal, ainda, eram crianças sem preconceitos. Já na escola, apareceram os primeiros indícios de personalidade fora da gama!. Era esperto e inteligente!. Aprendia tudo!. Só que não estudava. Fez os quatro anos de escolaridade obrigatória sem comprar um único livro. Fez o exame da quarta classe com o que aprendeu nas aulas. O professor Paulo, muito cedo se apercebeu do potencial do rapaz, e aconselhou-o para o melhor: - Lourenço, estuda que podes ir longe!. Sei que não tens posses para ir para o Liceu, mas há instituições que te podem acolher e aí fazeres um curso. – Dizia-lhe com frequência. - Que instituições? – Perguntava. – O Seminário, os Pupilos do Exército, a Casa do Gaiato ou a Casa Pia!. São instituições adequadas á tua situação. Grandes homens que fizeram história passaram por lá!. - Vou pensar nisso!. – Respondia. Claro, que só pensava naquela altura. A partir dali nunca mais se lembrava. Terminou a instrução primária à tira, anulando de imediato qualquer possibilidade de continuação!... Aos doze anos iniciou a fase profissional da sua vida. Começou numa quinta, como ajudante de hortelão. Mostrou interesse e aplicou-se. O mestre acreditou que tinha ali um aprendiz capaz e continuador da sua bela profissão. Erro. Ao fim de algum tempo, começou a saturar-se daquilo. Gostava de falar com pessoas e conviver. Viver numa quinta, era demasiado monótono – dizia ele. - Ao fim de um ano abandonou. Conseguiu convencer um marceneiro a ensinar-lhe a profissão. Começou bem!.. Lidava bem com a madeira e aparentava vontade de aprender. O patrão estava orgulhoso. Dar a mão a Lourenço era uma dádiva naquela aldeia. Quem o fizesse era quase como um herói. O sr. Camilo – assim se chamava o marceneiro – não escondeu nenhum segredo da profissão. Explicou!... Mostrou!... Exemplificou!... Enfim. Quis fazer dele um profissional. E, de facto, Lourenço ia muito bem!. O que fazia, fazia bem!.... Já fazia encalhes e asa de andorinha com perfeição!. Inesperadamente, sem que ninguém esperasse, e muito menos o sr. Camilo, Lourenço demitiu-se!... Alegou que o pó da madeira lhe fazia mal à saúde. Camilo ainda tentou dissuadi-lo da ideia ……… sem êxito!... Quis ser mecânico de automóveis. Com uma “cunha” conseguiu entrar numa oficina. Só esteve três meses!.. Pensava que como aprendiz, começava logo a mexer nos automóveis!. Mas não!. Lavar peças, arrumar a ferramenta e limpar a oficina eram as tarefas iniciais dos aprendizes, e ele não era excepção!. Não gostou!.. Alegou que não se dava bem com o cheiro do gasóleo e desistiu!... Ser electricista, foi o sonho seguinte. Um conterrâneo, profissional, admitiu-o como ajudante. Este, conhecendo as tentativas anteriores de Lourenço, não acreditou que resultasse. Mas, como não tinha nada a perder, deu-lhe a oportunidade!. Para sua surpresa, o rapaz indiciou interesse!... O facto de a profissão exigir muitas deslocações, entusiasmou-o. Não gostava de estar muito tempo no mesmo sítio!. Além disto, os mecanismos eléctricos cativaram a sua atenção. Em dois anos aprendeu a profissão. Para exercê-la necessitava da carteira profissional. Para a conseguir era necessário candidatar-se e fazer um exame teórico. E, aqui é que Lourenço roeu a corda!. Candidatou-se mas não foi fazer o exame!... Nesta situação não podia exercer por conta própria!. Assim, entre trabalhar por conta de outrem ou abandonar, preferiu abandonar!... Aos vinte anos foi cumprir o serviço militar. Não gostou. A subjugação à disciplina do RDM não era do seu feitio. Gostava de liberdade!. Um ano naquela situação foi uma eternidade. Saiu como entrou, sem medalhas, louvores ou castigos. Já na disponibilidade, dizia. – A minha vida vai mudar. Vou arranjar um emprego e dedicar-me a cem por cento!. – poucos acreditaram!. – Lá está ele!... – Comentavam. Imigrou para Lisboa. A decisão foi repentina. Ninguém soube quem o ajudou!. Mas alguém foi!. Alguém alvitrou, ter sido um conterrâneo há muito tempo estabelecido na capital, na área da restauração, e que tinha estado na aldeia havia pouco tempo. Não esquecer, que ele era cativante nas conversas e conseguia convencer!. O Zé Maria caiu!. Provavelmente foi o que aconteceu! De facto em Lisboa foi na área da restauração que se iniciou. Empregado de mesa num restaurante de bairro. Sabe-se que passou por outros com mais notoriedade. Não é de admirar!. Com todos os defeitos que Lourenço pudesse ter, a verdade, é que, onde se metia saia-se muito bem. O problema estava na continuidade! Só se sentia bem onde não estava!. O que vinha a seguir era sempre melhor!... Emigrou para França. Não se sabe como!. Provavelmente como tantos outros. A salto! Era assim nos anos sessenta. Por lá trabalhou em tudo: Ajudante de pedreiro, Electricista e Restauração. Na restauração foi onde mais tempo esteve. Percorreu praticamente todo o país. Não era difícil arranjar trabalho nesta área e ele aproveitou bem!. Regressou como emigrou!. Pobre!. O que ganhava era para sobreviver!. A sua ambição não ia além disto!... Quando regressou de França, reiniciou por Lisboa. Foi lá que ficaram os últimos contactos!. Parece que manteve sempre as instalações onde habitava antes de emigrar!. Como falava bem Francês, arranjou emprego num hotel, como recepcionista!. Ganhava razoavelmente e foi o emprego que mais tempo manteve. Um piropo, inadvertido, a uma cliente, valeu-lhe o despedimento!... Regressou ás origens com sessenta e cinco anos. Cheio de projectos!. Na sua teoria tinha um futuro pela frente!. As pessoas ouviam, e à socapa sorriam!. Outros gozavam. – Agora é que vai ser!.. Ainda vais chegar a Presidente da República!... – Rematavam em gargalhada. – E curiosamente na sua simplicidade, associava-se ás risadas. Até parecia que entrava na reinação!... Nunca casou. Não se sabe dos seus envolvimentos amorosos. Se os teve, nunca falou deles!... Conhecendo a sua natureza leviana e a idade com que regressou á sua terra natal, era mais que evidente que os projectos que apregoava, não passavam de teoria. De facto, por mais tentativas que tenha feito, conseguiu uma ocupação como vendedor de cautelas. Ganhava pelo número que vendia e não se saía mal!... Fazia a sua vida sem sobrecarregar ninguém. Antes pelo contrário!. Quando tocava a pagar rodadas de bebida em tabernas, ele era o primeiro e por vezes bisava. Houve, até, quem se aproveitasse disso. Nasceu pobre e morreu pobre. A sua conduta natural foram o contributo para a sua definição de vida. Do pouco que conheci dele, não me pareceu uma pessoa infeliz. Não houve rumores de que tenha ofendido ou molestado alguém!. Dívidas, parece que nunca as teve!. Se as teve, pagou!... Quando morreu, teve um funeral digno. Para surpresa geral, o Lourenço encomendou-o em vida. O pároco da freguesia foi o fiel depositário. Pagou todas as despesas, antecipadamente, e testamentou que os seus precários haveres vertessem para a Santa Casa da Misericórdia. O Lourenço, tinha a cabeça leve!... É verdade!... Mas viveu a sua vida como um senhor!... É recordado com alguma admiração!... Passados quarenta anos da sua morte, ainda se fala do Lourenço sonhador, como se fala do Padre Inácio!... Penso, que nunca será esquecido!...

publicado por jcm-pq às 10:21
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4 comentários:
De cuidandodemim a 16 de Julho de 2010 às 12:56
Adoro histórias de vida cheias de significado, como esta. Obrigada por partilhar!
Bjns


De jcm-pq a 21 de Julho de 2010 às 18:50
Olá Cuidando de mim!

Não tem de agradecer a partilha destas histórias de vida!. Para mim é um prazer fazê-lo, sabendo que alguém as aprecia!.
Obrigado por gostar!.

Um beijinho

Jcm-pq


De Caminhando... a 21 de Julho de 2010 às 22:52
Olá Jcm-pq!

Que bonita esta história.
Mesmo sempre a andar a saltitar de um lado para o outro, e tendo "cabeça leve", a sua vida no fim deve ter feito algum sentido pois conseguiu algo muito importante, que é tocar no coração das pessoas.

Um beijinho grande



De jcm-pq a 25 de Julho de 2010 às 22:13
Olá Joana!

É isso!. A sua simplicidade tocou todos. Dentro da sua simplicidade, acho que foi uma homem feliz!. Fez sempre o que queria!. E, isso, sem o poder manifestar, era liberdade!.

Um beijinho grande!

José Mateus


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