Segunda-feira, 12 de Julho de 2010

O Poeta Anónimo

Quando andamos por aí, encontramos uma enorme diversidade de pessoas!. Altas, baixas, magras, gordas, sisudas, risonhas, simpáticas, antipáticas, bem vestidas, mal vestidas, sós, acompanhadas ou em grupos!. Em qualquer das situações não sabemos quem são, o que são, o que pensam e, muito menos, o que lhes vai na alma! Podemos imaginar, pela sua maneira, aspecto e comportamento, e, ás vezes, até ficamos muito próximos. Mas, há casos em que ficamos muito, mas mesmo, muito longe. Acontece, quando julgamos pelas aparências!... Há dias, em Castelo Branco, aconteceu algo, inesperado, que me deixou perplexo e a pensar!... Com a minha mulher, entramos na charcutaria em que habitualmente fazemos as compras da especialidade. Á nossa frente, entrou um homem. O seu aspecto não era de dar nas vistas. Não vestia bem nem mal mas apresentava-se limpo. Se estivesse voltado para a análise, classificava-o como uma pessoa simples, com pouco cultura, inofensivo, solitário e sobretudo tímido. O Sr. Manuel – como lhe chamou a senhora da charcutaria – demorou um pouco a recolher das prateleiras o que necessitava. Não aparentava pressa!. Entretanto, a senhora, que já nos conhecia, deu-nos atenção e começou a aviar-nos. Estava a meio, quando o sr. Manuel se aproximou para pagar. Não trazia muitos artigos!... Dona Guilhermina, tome aí nota que eu já lhe pago – Disse ele. – Está bem. – Disse ela. – Pode interromper e fazer a conta, que o sr. entrou primeiro. – Dissemos nós. - Sr. Manuel, venha cá, que os senhores não se importam que passe á frente!. Chamou, ao mesmo tempo que pegava na caneta. Inesperadamente, o sr, Manuel disse: - Enquanto faz a conta aproveito para dizer um versos a estes senhores!... Sem dizer nada, ficamos a olhar para o homem, a ver o que saía dali. Eu, confesso, fiquei um pouco desconfiado!... - Não sei ler nem escrever, mas faço versos com muita facilidade, querem ouvir? Sem dar tempo a responder, lá vieram os primeiros, alusivos, exactamente, ao seu analfabetismo. - Fiquei viúvo há dez anos e fiz uns versos á minha santa esposa. – Continuou sem dar tempo a comentar os primeiros!. Ao fim destes ainda dissemos que devia deixar escrever ou gravar versos tão bonitos. Abanou a cabeça, em sentido negativo e continuou. Durante um quarto de hora, que mais pareceram dois minutos, e sem direito a comentários, o sr. Manuel não parou de versar!... - Até á próxima, meus amigos!. – Disse, e saiu da loja. Inesperadamente começou e inesperadamente terminou, sem esperar por um elogio ou comentário. Eram versos lindos!... Profundos!... Alguns, até arrepiavam!... Fiquei sem saber se eram espontâneos ou memorizados!... De qualquer das formas, estava perante um poeta do povo, simples e natural!... Um poeta anónimo!... – Quem diria!... Pensei eu. De facto, quem não o conhecer, não faz ideia da sua capacidade e sensibilidade. Acho que ele próprio não faz ideia da riqueza que contém!. É pena perdê-la. Seria bom imortalizá-la, tal como aconteceu com António Aleixo. Mas, é pouco provável!... Segundo a dona Guilhermina, ele não dá hipótese. – Não quero - afirma com determinação, quando confrontado. Porquê?. Não se sabe!... Foi um momento bom!... Único!... Que bom encontro tivemos!... Que momento de felicidade, aquele homem nos ofereceu!... Obrigado Sr. Manuel!...

publicado por jcm-pq às 18:07
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Domingo, 27 de Julho de 2008

Vaidade não tem idades

Duas senhoras, mãe e filha, idosas, vivem juntas. A mãe, velhinha, com cerca de noventa anos, está entrevada. Faz a sua vida, de dia, numa cadeira de rodas. De vez enquanto, apoiada na sua bengala e com ajuda da filha, com muito custo, lá se endireita e dá uns passinhos. Vê e ouve mal. O ouvido atraiçoa-a. Deturpa-lhe os sons, dificultando por sua vez o seguimento das conversas. Tem, no entanto, apetite e um paladar apurado. Abusa deles, é claro.

Diz a filha e os vizinhos, também, já em idade avançada, que quando nova, foi muito bonita. Agora é uma figura triste, curvada e de cor amarelenta. Usa óculos com lentes muito grossas, de aumento forte, que escondem uns olhos azuis, ainda bem bonitos, mas que vistos através delas, parecem olhos de peixe. O seu nariz, curva em direcção ao queixo aguçado. É uma imagem que condiz com a idade.

A filha, com menos vinte anos, caminha para o mesmo. Ainda tem porte altivo e alguma elegância, mas já se nota curvatura nas costas, dificuldade no andar, falta de vista e ouvido. Á semelhança da mãe, também abusa do paladar apurado. Os seus traços fisionómicos indiciam ter sido uma mulher bonita. Raramente sai á rua, devido ao estado da mãe.

Têm, no entanto, um arsenal de produtos de beleza de fazer inveja: Cremes, loções, blushes, perfumes, batons e vernizes, é o que não faltam. Ambas se servem deles.

A mãe, serve-se do espelho, mas como vê muito mal, de pouco lhe serve. As camadas de creme ou blushes e nódoas de baton são frequentes na cara enrugada. Ainda com uma cabeleira semi-farta, tem cuidados especiais com o penteado: Carrapito (mal feito), cabelo solto e caído, encaracolado (irregular) com rolos manuais são alguns tipos de penteado. São todos feitos por ela. Não larga o pente, a não ser para comer ou tratar da maquilhagem. Por vezes, com a sua mão trémula e enrugada, vê-se a torcer os caracóis com gesto a fazer lembrar a adolescência.

A filha , também se arranja muito bem. Com melhor vista e mais porte cuida-se melhor. Não se vêm nódoas de baton no rosto, mas abusa do blushe, dos cremes e dos vernizes. Arranja o cabelo com frequência, mas mantém o mesmo penteado: Cabelo caído a dar pelos ombros.

Os filhos de uma e netos da outra, pedem-lhes, para não se pintarem tanto. A mais nova, nem responde, ignora e continua a fazer o mesmo. A mais velha irrita-se, revolta-se – O que vocês querem é que não pareça bem!... – Diz ela, quando não amua.

Uma e outra são felizes assim. Sentem-se bem!. Cuidarem da sua imagem, faz parte da sua maneira de ser. Sentirem-se bonitas e cuidadas é viverem melhor!... Serem vaidosas, não é defeito. A vaidade não tem idades.

 

Jcm-pq

publicado por jcm-pq às 15:48
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Quarta-feira, 18 de Junho de 2008

Memórias da Minha Terra

As recordações de infância, aparentemente, adormecidas eternamente, surgem-nos muitas vezes de forma tão clara e saudosista, como que um convite a materializá-las para não mais serem esquecidas. Foi este estado de espírito, que me levou a pegar na caneta e escrever este texto recordando a minha aldeia há muitos anos atrás. Começo pelos rios Ocreza e Ribeirinha: Ambos nascem na Serra da Gardunha. O Ribeirinha desagua no Ocreza e por sua vez, este desagua no Tejo. Em lados opostos, o Ocreza corre a cerca de 2 quilómetros, do lado nascente da aldeia e o Ribeirinha a menos de 500 metros, no lado do poente. Situando-me no Ocreza, conheci-o desde a ponte romana, no lugar dos barrinhos, até á ponte pedrinha. O curso rápido da água, nas margens apertadas, era quebrado amiúde pelos açudes ao longo do percurso. Dos açudes, feitos com tal propósito, saiam as “levadas” que constituíam a força motriz dos moinhos. Também estes açudes, eram no Verão a “praia”, sobretudo dos rapazes. Os açudes dos braços, moinho novo e pacheca eram os mais frequentados. Nos Domingos, a qualquer deles, afluía muita gente. As águas correntes, eram límpidas e tinham muito peixe. Era um encanto apreciar esta natureza pura. O Ribeirinha era mais pequeno. Lembro-me dele desde a Sarangonheira até ao Chão da Ponte. Tinha as mesmas características que o Ocreza. Era limpo com muito peixe e com alguns açudes. Os açudes bastante mais pequenos, tinham os mesmos objectivos. Num destes aprendi a nadar. Nas pontas da aldeia havia dois locais, característicos, de utilidade pública: o adro e a devesa. Eram amplos e propícios aos torneios do jogo da “malha”. A devesa era maior; tinha o campo de futebol, o chafariz público, o posto de transformação de electricidade, “a cabine” e era onde acampavam os ciganos aquando da sua passagem por aquelas bandas. A aldeia era rodeada por quintas, com alguma dimensão. Os muros baixos em algumas e a ausência deles noutras, davam-lhe um aspecto baldio, embora fossem propriedades privadas: O chão da escola, nas traseiras da dita, era grande e todo plantado de oliveiras; O chão dos santos, ao lado da devesa tinha as mesmas características; a fonte nova e valdinardo, contíguos ao adro eram semelhantes aos anteriores. O Chão do outeiro, era diferente em arborização; em vez de oliveiras tinha sobreiros. Os proprietários destas quintas eram pessoas abastadas. Tinham outras fora da povoação que cultivavam intensivamente. Por isso, estas estavam praticamente de pousio. Neste estado, qualquer delas era propícia para as brincadeiras dos rapazes, sobretudo “cawboiadas”. Participei bastante nelas. Recordo-me, que, por inspiração nos filmes de “Westerns”, identificávamos estes locais, por estados americanos: O chão do outeiro era o Kansas; o chão das escola o Colorado; o chão dos santos, a Califórnia e o valdinardo, o Texas. A colheita da azeitona e da bolota eram feitas pelos donos, mas em qualquer dos casos o que caía para o chão era recolhido por quem necessitasse. Era uma benesse dada á povoação. Hoje, está tudo diferente: Os rios, devido ás barragens, então construídas, estão secos. Correm em Invernos muito chuvosos; as quintas foram urbanizadas e são bairros de habitação. Olhando quarenta anos para trás, não parece a mesma aldeia. Recordo com alguma saudade o passado, mas entendo, que com o progresso e evolução dos tempos não podia ser de outra maneira. Não temos a sensação de liberdade á volta da aldeia, mas temos uma aldeia maior e mais moderna!!!. Jcm-pq
publicado por jcm-pq às 10:22
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